A universidade enquanto horizonte possível: discutindo o conceito de território.

Por: Rosa Helena Ribeiro Teixeira
Graduanda em Pedagogia – UFBA
Voluntária do Programa de Educação Tutorial – PET

 

 

universidade

Fonte: http:/ /bolivicong.blogspot.com.br/2013/10/qual-melhor-faculdade-de-medicina-da-bolivia.html

 

Eles querem que alguém
Que vem de onde nóis vem
Seja mais humilde, baixe a cabeça
Nunca revide, finge que esqueceu a coisa toda

EMICIDA¹

       Este texto nasce das inquietações vividas no projeto de extensão intitulado: “Incentivo ao ingresso de estudantes de escolas públicas no ensino superior público”², desenvolvido na Faculdade de Educação da Universidade Federal da Bahia. Ele tem por objetivo discutir o conceito de território enquanto chão da identidade, trazido por Milton Santos, a partir do relato da aproximação entre duas estudantes: uma estudante do terceiro ano do ensino médio de uma escola pública estadual e uma estudante do curso de Enfermagem da UFBA.

       Enquanto bolsista do projeto de extensão, e responsável pelos acompanhamentos pedagógicos dos estudantes durante o processo de conclusão do ensino médio e preparação para o ENEM, com vistas à ingressarem no ensino superior, a relação mantida com os estudantes é do importante exercício de ouvi-los, acalenta-los e ajuda-los a construir que nós somos uma rede, porque existem muitos elementos que fazem com que nos identifiquemos uns com os outros.

        Esses acompanhamentos se colocam como uma chuva de catarses, dado que, a nova dinâmica de estudo diário e intenso causa angústia recorrente nos participantes do projeto, bem como, um sentimento de (in)capacidade frente ao novo desafio colocado. Diante disso, percebemos que, para além dos diálogos sobre a nova rotina de estudos, era preciso ouvir as inquietações dos estudantes no que tange a aflição que sentem em escolher um curso e a incerteza de ingresso na UFBA, principal universidade que os estudantes querem ingressar por ser pública e reconhecida.

          Assim surgiu a ideia de identificar estudantes da UFBA que estejam no curso por eles pretendido, que tenham perfil socioeconômico e trajetória escolar parecidos, bem como, alguns integrantes do projeto dos anos anteriores, para apresenta-los aos estudantes, através de um bate-papo e quando possível uma visita guiada a UFBA, no sentido de propiciar uma identificação de uns com os outros, seja pelo história de vida (perfil parecido ou pela participação no projeto) e luta para ocupar a UFBA, o território em questão.

        Para uma das conversas com o grupo, convidei uma estudante de Pedagogia, egressa do Bacharelado Interdisciplinar (BI) em Humanidades, mestranda em Cultura e Sociedade da UFBA para relatar a sua experiência enquanto mulher preta na universidade, falar sobre como se deu o surgimento dos BI’s e a sua configuração atual e, as possibilidades que este curso traz para os participantes do projeto.

      Durante a conversa, uma das estudantes que pretende cursar enfermagem relatava os medos da escolha do curso tão precocemente, a angústia da universidade pública enquanto possibilidade única, por ser gratuita e de difícil acesso, revelando o quanto se sentia distante do território da UFBA. Dado isso, encontramos como estratégia apresentá-la a uma estudante de enfermagem da UFBA e propor uma visita a instituição.

      A UFBA é uma instituição pública, gratuita e que toda a população tem livre acesso ao seu ambiente físico. Contudo, este se configura enquanto um território ainda pouco explorado pelos estudantes que fazem parte do projeto. Convém registrar que todo território é político, visto que, o espaço que pode ser apropriado/dominado por um sujeito social implica em relações de poder e em processo de construção territorial. Segundo Milton Santos, o  território:

[…] é o chão e mais a população, isto é uma identidade, o fato e o sentimento de pertencer àquilo que nos pertence. O território é a base do trabalho, da residência, das trocas materiais e espirituais e da vida, sobre as quais ele influí. Quando se fala em território deve-se, pois, de logo, entender que está falando em território usado, utilizado por uma população. (SANTOS, 2003, p.46)

           Esse território para ser compreendido é preciso relacioná-lo com a identidade, quer seja o sentimento de pertença dos sujeitos que constroem aquele lugar. A identidade é aqui entendida como um processo dinâmico, de trocas constantes que “[…] se manifesta na língua, nas crenças, nos costumes, na arte e que veicula um espírito próprio (a identidade)” (COELHO, 2008, P. 22).

              Depois de visitar a Escola de Enfermagem e se identificar com aquele chão e com a estudante que guiou a sua visita, foi possível observar algumas mudanças no comportamento da estudante no acompanhamento pedagógico seguinte. A participante do projeto voltou a sala, pegou um caderno que havia comprado recentemente com desenhos de ligações químicas e apontamentos e relatou que agora se sente impulsionada a estudar, pois percebeu que aquela era a sua chance de pertencer ao curso de Enfermagem da UFBA. Disse, ainda, que “era um sinal do destino, se uma estudante do curso que ela pretende estudar, que estudou no mesmo colégio e no mesmo curso preparatório conseguiu, ela também conseguirá”.

        Em suma, o encontro entre essas histórias de vida no território da UFBA, permitiram a estudante identificar que ela pode vencer as barreiras, que antes pareciam intransponíveis, de ocupação desse espaço novo. Dessa forma, atividades dessa natureza podem colaborar no reforço quanto à importância do abeiramento e da identificação das aproximações sucessivas com os territórios, para que estes venham a ser apropriados por esses corpos desejosos em estabelecer uma relação de pertença com a universidade pública, que passa a se revelar enquanto um horizonte possível e não mais um sonho distante.

¹ Letra da música Mandume de EMICIDA retirada do link: https:/ /www.vagalume.com.br/emicida/mandume-part-drik-barbosa-amiri-rico-dalasam-muzzik-e-raphao-alaafin.html

² O projeto tem como escopo identificar e selecionar 15 estudantes de escolas públicas no centro da cidade, que atendam a critérios como ter renda per capita igual ou inferior a um salário mínimo, cursar o terceiro ano do ensino médio e que tenha vida escolar majoritariamente no ensino público, para participar de uma experiência que associa a participação num curso preparatório para o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) aliado à reuniões, acompanhamento pedagógico, oficinas e participação em atividades científico-culturais.

REFERÊNCIAS

COELHO, Teixeira. A cultura e seu contrário: cultura, arte e política pós 2001. São Paulo: Iluminuras: Itaú Cultural, 2008.

LUZ, Narcimária do Patrocínio. É preciso africanizar a universidade. In: Educação, região e territórios: formas de inclusão e exclusão / Jaci Maria Ferrraz de Menezes, Elizabeth Conceição Santana; Maria do Sacramento Aquino, Orgs. Salvador: EDUFBA, 2013, 173-185 p.

SANTOS, Milton. Por outra globalização – do pensamento único à consciência universal. Rio de Janeiro: Record, 2003, 174p.

SOUZA E SILVA, Jailson de. Por que uns e não outros?: caminhada de jovens pobres para a universidade.  Rio de Janeiro: 7Letras, 2003.

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