A Literatura Infantil e a Questão da Representatividade Negra

Por Isadora Cruz
Graduanda em Pedagogia da UFBA
Bolsista do Programa de Educação Tutorial – PET

 

bonecas-pretas-clipe-de-larissa-luz-clama-por-representatividade-para-criancas-negras-7Fonte: http://oladobomdavida.com/2017/02/03/bonecas-pretas-clipe-de-larissa-luz-clama-por-representatividade-para-criancas-negras/

 

       A Literatura Infantil possui substancial valor no processo educacional das crianças.    A partir desse objeto do conhecimento, é possível auxiliar de forma efetiva no desenvolvimento da imaginação, no aprendizado através de imagens e da ludicidade, no fomento de comportamentos leitores impulsionando a curiosidade para que novas descobertas sejam realizadas e, deste modo, amplia-se a compreensão de si e do mundo.

         Em sua maioria, esse tipo de texto narrativo não é produzido por crianças, apesar de ser direcionado especialmente para este público, geralmente seus escritores são pessoas que estão na fase adulta. Por este motivo, torna-se pertinente refletir acerca do que está sendo reproduzido nessas obras, se há representatividade étnico-racial de forma positiva, se promove criticidade ao ser lida ou se apenas reafirma padrões, preconceitos e estigmas sociais provenientes da cultura dominante.

            Analisando o uso da literatura infantil no Brasil no processo formal de educação, a partir da Educação Infantil e atingindo também as séries iniciais do Ensino Fundamental, grande parte dos livros utilizados são de origem europeia, a exemplo disso, os contos de fada e seus personagens majoritariamente com aspectos físicos brancos, tidos como referência de beleza clássica, sobre isto afirmam Fanny Abramovich:

A fada, a princesa, a mocinha são sempre protótipos da raça ariana: cabelos longos e loiros, olhos azuis, corpo esbelto, altura média, roupa imaculada (…). O mocinho, o príncipe, é alto, corpulento, forte, elegante (Abramovich, 1994, p. 36-37, 39-40);

          Em contraponto, a sociedade brasileira possui uma enorme diversidade fenotípica e, assim, ao ler esses livros, apesar de admirar as imagens por serem apresentadas de forma comumente, as crianças não se reconhecem nos personagens protagonistas, afinal, nesses enredos, o negro/a negra vive em papeis coadjuvantes e como seres inferiorizados, isso quando são incluídos(as), em relação a essa questão, Tomaz Tadeu da Silva analisa,

Fixar uma determinada identidade como a norma é uma das formas privilegiadas de hierarquização de identidade e das diferenças. A normalização é um dos processos mais sutis pelos quis o poder se manifesta no campo da identidade e da diferença. Normalizar significa eleger – arbitrariamente – uma identidade específica como parâmetros em relação ao qual as outras identidades são avaliadas e hierarquizadas. Normalizar significa atribuir a essa identidade todas as características positivas possíveis em relação às quais outras identidades só podem ser avaliadas de forma negativa. A identidade normal é “natural”, desejável, única (Silva, 2000, p. 83).

           Nesse contexto, é de extrema relevância que o profissional de Educação, selecione as obras que serão utilizadas em sala de aula para que estes textos literários infantis insiram a participação efetiva e protagonismo negro nas histórias, garantindo aos educandos e educandas o direito a conhecimentos e reconhecimentos em relação ao seu grupo étnico-racial e a respeito da sua realidade. Importante também que o(a) docente receba um suporte teórico/metodológico para que possa aprenderensinaraprender com fundamento os saberes que serão abordados e contemplados. A título de exemplo, sugere-se os seguintes livros:

  • A Menina e o Tambor (autores: Sônia Junqueira e Mariângela Haddad);

  • A História do Rei Galanga (autores: Geranilde Costa e Claudia Sales);

  • Bichos da África 3: Lendas e Fábulas (autor: Rogério Andrade Barbosa);

  • Cada um com seu jeito, cada jeito é de um!(autores: Lucimar Rosa Dias e de Sandra Beatriz Lavandeira);

  • Epé Laiyé – Terra Viva (autora: Maria Stella de Azevedo Santos);

  • Ifá, o Adivinho (autores: Reginaldo Prandi e Pedro Rafael);

  • Menina Bonita do Laço de Fita (autora: Ana Maria Machado;

  • Minha mãe é negra sim! (autores: Patrícia Santana e Hyvanildo Leite);

  • O Cabelo de Lelê (autora: Valéria Belém);

  • Omo-Oba-Histórias de Princesas (autores: Kiusam de Oliveira e Josias Marinho);

  • Todas as Cores do Negro (autora: Arlene Holanda).

          A partir dos exemplos tidos acima, é possível realizar escolhas que respeitem a diversidade étnico-racial e, quem sabe assim, contribuir para uma proposta pedagógica antirracista, livre de padrões e estereótipos europeus e valorizando a diversidade brasileira referente ao aspecto racial e cultural, enaltecendo as diferentes belezas dos afro-brasileiros e africanos dentro da comunidade escolar e para além dos muros da escola.

       Enfim, a expectativa é que com o tempo e o entendimento por parte dos professores(as) garanta a construção de novas práticas pedagógicas que ressignifiquem a identidade cultural do povo negro, com um olhar voltado para a diversidade, que denuncie e combata a discriminação racial no Brasil de forma lúdica, prazerosa, representativa e respeitosa com a infância e subjetividade das crianças afrodescendentes.

 

 

REFERÊNCIAS

ABRAMOVICH, Fanny. Literatura infantil, gostosuras e bobices. São Paulo: Scipione, 1994.

ARBOLEYA, Valdinei José. O negro na literatura infantil: apontamentos para uma interpretação da construção adjetiva e da representação imagética de personagens negros. Disponível em: http:/ /www.geledes.org.br/o-negro-na-literatura-infantil-apontamentos-para-uma-interpretacao-da-construcao-adjetiva-e-da-representacao-imagetica-de-personagens-negros/#gs.null. Acesso em: 13/04/2017.

MELO, Raimunda Alves. Literatura infantil lúdica: uma importante ferramenta para a formação de leitores. Disponível em:

http:/ /www.plataformadoletramento.org.br/em-revista/572/literatura-infantil-ludica-uma-importante-ferramenta-para-a-formacao-de-leitores.html. Acesso em: 13/04/2017.

RISSO, Luciana e SILVA, Giselle Toledo da. “Conta Outra Vez!”: Literatura Infantil na Escola. Disponível em: http:/ /web.unifil.br/pergamum/vinculos/000007/00000799.pdf. Acesso em: 13/04/2017.

SILVA, Tomaz Tadeu da; HALL, Stuart; WOODWARD, KathrynIdentidade e diferença – a perspectiva dos estudos culturais. Rio de Janeiro: Vozes, 2000.

 

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