Bullying: mexeu comigo!

Por: Ambrosia Araújo

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“Seria mais um caso tão banal se pra mim não fosse especial, minha magoa não disfarça e eu sigo a minha estrada.” (Luan Terra, Ambrosia Araújo, 2010)

      Não sou do tipo de pessoa que sente falta dos tempos de colégio. Esse passado do qual não tenho saudades tem um motivo:  bullying. Fui, e só entende quem foi, uma criança gorda; e não por desleixo dos meus pais, mas devido a uma busca de conforto que só a comida poderia me proporcionar.

      Toda criança tem uma história.  A minha história era complexa e um pouco traumatizante e certamente nada disso foi levado em consideração. Quando faço uma reflexão chego à conclusão que tudo começou quando a professora disse aquela frase clichê: “Tão linda! Fecha a boca que se você emagrecer vai ficar ainda mais bela.”

      Tudo começou no 3º ano do ensino fundamental I. Estudei em um pequeno colégio de bairro e na minha turma havia 8 alunos.  (3 meninos e 5 meninas). Eu era uma excelente aluna e muito participativa, mas não tinha obsessão por estudos.  Dessas 8 crianças que cursavam o 3º ano, 5 eram veteranos, logo nos conhecíamos bem e éramos todos bons colegas. Não me recordo como as panelinhas começaram, mas o sentimento de exclusão se iniciou junto com elas.

      Eu era gordinha, usava óculos, era muito desengonçada e pouco vaidosa. Essas características, associadas a um bom desempenho escolar, foram fatores definitivos para a minha vida estudantil virar um inferno.

      Laís, Patrícia, Leila e Lúcia (nomes fictícios para preservar a identidade das colegas) eram perversas e cruéis. Elas tinham o visível prazer de me espezinhar sempre; raras vezes eu era chamada para estar com elas e ainda assim, isso só acontecia quando eu tinha dinheiro para pagar pirulitos e salgadinhos. Naquele ano, desenvolvi  a necessidade de associar objetos e comportamentos para ter um bom dia na escola ou não.

      No ano seguinte, Lucia e Patrícia saíram da escola, mas as outras duas que permaneceram faziam questão de manter suas posições e automaticamente contaminavam quem chegava. Acredito que o maior todos os micos que passei foi quando a professora de Educação Física expôs as notas de uma prova que fizemos e concluíram que fui a única que tinha atingido uma boa pontuação.

      A infância estava acabando e a tendência das perseguições aumentava com a chegada da adolescência.  Uma adolescente fora dos padrões era uma afronta ao que a mídia sempre pregou. No primeiro ano do Ensino Fundamental II, as atenções saíram um pouco de mim, pois aquele ano não era pra brincadeira e sim para estudo. Estávamos entrando no ginásio, como era denominado o Ensino Fundamental II naquele tempo.

      Infelizmente esse lapso de maturidade foi logo embora e no ano seguinte, 7º ano ou antiga 6ª série, as perseguições ficaram muito mais fortes.  Além dos fuxicos, apelidos e desprezo, eu também tinha que aturar paródias musicais, como:

        “Que você é mais gorda é verdade, mas não quero falar de obesidade. Vou sair daqui, pra não me sufocar.”

      Era um momento que eu não sabia enfiar a cabeça de tanta vergonha.  A revolta era tão grande que a vontade era partir para agressão física e verbal, mas eu não tinha muito que fazer.  Eles eram maioria e eu apenas uma aluna gorda que no dia seguinte seria alvo de chacota de novo. Também ponderava muito minhas ações, pois temia dar desgosto a meu pai em casa.

      Um dia a gente cansa e promete mudar. O grande problema da mudança é que às vezes pode ser para pior.  Estava finalizando o “ginásio” quando mudei de colégio. Sai de uma pequena escola de bairro para um grande colégio no centro da cidade.  A partir do dia que coloquei os meus pés lá e percebi que já tinham alunos olhando torto, prometi a mim mesmo que tudo seria diferente.  E foi.

      A maioria dos adolescentes quando chegam aos 14 anos estão preocupados com namoro, sexo, baladas e drogas. Todo mundo quer viver essas experiências, mas existe um enorme tabu em volta dessas questões.  Diante dos olhos dos demais “aborrecentes”, eu só era uma gorda fracassada, pois não me encaixava no modelo desejado para a idade.

       Tudo bem. Naquele momento eu já não me preocupava em ser igual a eles, mas focava em não ser mais pisada. Já estava cheia de sofrer bulliyng e não podia me mostrar fraca para os “inimigos”. Oras, nada melhor do que reproduzir o que fizeram comigo, não?

      Meu comportamento mudou completamente. Já não bastasse os traumas sofridos no passado com meus colegas, ainda tinha os problemas pessoais que me cobravam uma maturidade de uma mulher de 40 anos. Estava vivendo aquele momento em que deixava de ser cuidada para cuidar.

      A aluna assídua e dedicada se tornou desleixada e faltosa. Não tinha paciência para nada, não queria encarar aqueles adolescentes falando de namoro, sexo e a farra da noite passada. Sem falar naqueles professores maldosos e despreparados para tratar de certas situações, que sempre soltavam uma “charadinha” para te lembrar do seu defeito.

      Não soube considerar ninguém, o pior é que virei a vilã da história sem ao menos perceber.  Fiz chacota, paródias musicais e gritei com pessoas que nunca me prejudicaram em nada. O que consegui foi apenas afastar colegas maravilhosos e não entendia o porquê do afastamento. Não saia de casa com a intenção de vitimar alguém, mas sempre atordoava algum bom colega.

      Há sete anos que conclui o ensino médio. O tempo foi trazendo maturidade para perceber que muitas das minhas ações foram agressivas e sem propósito. Até hoje sinto remorso por ter agido mal com algumas pessoas. Contudo, aqueles tempos me deixaram sequelas que me ferem a autoestima e a minha autoconfiança.  Descontruir as mutações que a nossa personalidade se ver obrigada a criar é uma missão ardilosa. O bullying me deixou feridas que não doem apenas em espaços escolares ou de trabalho, a gente leva para cada momento de nossas vidas.

      Deixo aqui 2 sugestões de filmes para quem deseja entender um pouco mais sobre bullyng:

Um Grito de Socorro – 2013

Sinopse:

Jochem é um adolescente gordinho que sofre bullying de um grupo de colegas da escola. Alguns até tentam ajudar, mas a situação sai do controle quando o garoto é forçado a beber em uma festa. David, amigo do jovem, se sente culpado por não ter defendido o colega, e resolve procurá-lo sem imaginar que talvez seja tarde demais para ajudar Jochem.

Preciosa – Uma história de Esperança-2010

Sinopse:

1987, Nova York, bairro do Harlem. Claireece “Preciosa” Jones (Gabourey Sidibe) é uma adolescente de 16 anos que sofre uma série de privações durante sua juventude. Violentada pelo pai (Rodney Jackson) e abusada pela mãe (Mo’Nique), ela cresce irritada e sem qualquer tipo de amor. O fato de ser pobre e gorda também não a ajuda nem um pouco. Além disto, Preciosa tem um filho apelidado de “Mongo”, por ser portador de síndrome de Down, que está sob os cuidados da avó. Quando engravida pela segunda vez, Preciosa é suspensa da escola. A Sra. Lichtenstein (Nealla Gordon) consegue para ela uma escola alternativa, que possa ajudá-la a melhor lidar com sua vida. Lá Preciosa encontra um meio de fugir de sua existência traumática, se refugiando em sua imaginação.

 

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4 respostas para Bullying: mexeu comigo!

  1. Érica Ruth disse:

    Parabéns pelo texto!! Muito bom. 👍👏👏👏

  2. Chaiene disse:

    Lindo texto!
    Aflora a sensibilidade de tal forma, que em certo momento nos faz sentir incomodo por tal absurdo.
    Me fez querer ler mais… Parabéns!

    Saudações petianas! ♥

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