Diário de uma disléxica

Por: Flávia Miola Gomes   Apresentação1

Em mil e quinhentos o Brasil foi descoberto; em mil novecentos e oitenta e nove , quando eu tinha mais ou menos 8 anos, recebi o diagnóstico de que era disléxica; então, a primeira pergunta que me veio a cabeça foi “que raios é isso?”. Descobri que tenho dislexia. Dislexia herdada do meu pai.

No Ensino Fundamental I, passei por muitas dificuldades na escola; cheguei a repetir o ano e sofri bullying dos meus coleguinhas. Mas em nenhum momento me coloquei para baixo e dizia para mim mesma que eu era capaz de aprender.

Na escola, sofri muito na alfabetização. Era claro meu desinteresse por livros e dificuldade para pronunciar palavras longas e complexas. Claro também era meu desinteresse total por ler e escrever. Eu era uma aluna dispersa e desatenta. Até hoje tenho muitas dificuldades em soletrar palavras. Até hoje troco letras e escrevo errado. Desde o meu diagnóstico até meus 13 anos, sempre fiz acompanhamento multidisciplinar com psicóloga, fonoaudióloga e psicopedagoga.  Hoje tenho certeza que me ajudou e muito o meu desenvolvimento na escrita e principalmente na leitura. Uma vez minha mãe me levou ao psiquiatra e este me receitou um remédio de tarja pretae minha mãe achou um absurdo; enfim, ela não me deu e eu agradeço por ela ter tido essa consciência. Descobri que não sou burra, que não sou besta, que não sou anta. Nem outro animal. Que tenho dificuldades com controle, mas sem cura. Não me desespero com isto porque aprendi a impor meus “não sei” e articulo muito bem meu discurso na língua falada. Sou ótima em falar em público: respondo calmamente, respiro fundo, tenho ideias bem conectadas. Estou conquistando meu espaço: já estou quase me formando em Pedagogia pela Universidade Federal da Bahia e por muito tempo, eu me mantive calada e não dizia para as pessoas que era uma disléxica, por medo, por vergonha. Pude perceber na universidade que muitas pessoas, muitas colegas não sabiam de fato o que era a dislexia. Comecei a estudar mais sobre o assunto e me questionar o porquê que na Universidade Federal da Bahia pouco se falava em dislexia. Mesmo você indo atrás de livros e pesquisando uma boa definição, acredito que o significado da dislexia através das experiências de vida do próprio disléxico é muito importante compreender os efeitos da dislexia no próprio dia-a-dia. Vou explicar melhor: percebo que a maioria dos autores e livros que tratam do assunto falam do disléxico de forma muito “rotulativa”; como consequência, as pessoas acabam se prendendo em uma definição muito simplória, algo do tipo “alguém que inverte letras ou tem problemas de leitura”. Dislexia é algo muito mais complexo e extenso que isso: traz dificuldades na escrita, nas relações espaciais, nas direções (direita e esquerda), na administração do tempo, na memoria, na lembrança de palavras. É por exemplo, a dificuldade de lembrar por um instante o nome da melhor amiga (já aconteceu comigo), de confundir o número de telefone do namorado e ligar para outra pessoa (isso também), é ter receio de que a qualquer momento uma confusão mental possa acontecer. Todos dos disléxicos apresentam certa dificuldade com linguagem, mas a implicação disso varia muito de pessoa para pessoa. Por exemplo, eu não tenho problemas com leitura e minha memoria fotográfica é ótima, e tenho um bom discurso; porém já me pequei escrevendo palavras com letras invertidas e troco letras. Existem outros disléxicos que tem outras características, há aqueles que têm grande dificuldade com leitura e, no entanto, não ter problemas de memória ou espelhar números; outros interpretam um texto com excessiva dificuldade. Por isso, o disléxico cada um é único e especial, por isso é tão arriscado rotular a todos de forma simples e tão generalizada. Meu interesse e afinidade pelo assunto é tão grande que hoje escrevo meu Trabalho de Conclusão de Curso e posso afirmar que descobri que a dislexia não me impediu de “alçar grandes vôos”. Esqueço nomes, confundo datas, troco letras todos os dias. Mas todos os dias também escrevo palavras e chego exatamente onde eu quero. A única maneira de se libertar dos estigmas da dislexia é trabalhar com ela e não contra ela.

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Uma resposta para Diário de uma disléxica

  1. Camila Bahia disse:

    Muito bom texto Flavinha! Retrata as dificuldades que você enfrentou durante o período de escolarização e as implicações da dislexia que a rodeiam atualmente. Concordo com você, literalmente, quando diz que existe uma generalização simplória do que seja de fato, a dislexia. E apoio sua fala, ao dizer que nenhum disléxico é igual ao outro por ser disléxico. Me chame para assistir sua monografia! Abraços.

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