A Escola e seus Desafios Sociais

 Por: Andreisa Cardoso

      Segundo a Pesquisa Nacional por amostra de domicílios (PNAD) publicada no dia 29 de junho de 2014 pelo IBGE, apenas 22,4 % dos jovens conseguem concluir o ensino médio na idade de 19 anos, sendo que a idade esperada seria 17 anos para o término da educação básica e a situação se complica ainda mais quando nos referimos aos jovens de classes populares. Poderia citar os mais diversos fatores contribuintes para esses números, mas destaco aqui algo que tenho pensado como hipótese ainda pouco explorada.

      Em 2008 surge um ritmo musical intitulado funk ostentação ou funk paulista, que tem suas raízes ligadas ao funk proibidão que exaltava facções criminosas e enaltecia a vida do crime; em 2011, este que seria mais um ritmo regional acaba por se expandir para todo o Brasil passando a ser um mais novo estilo de vida, que valoriza o consumo e a própria ostentação de bens como carros luxuosos, motocicletas, cordões de ouro, bebidas, mulheres e etc.

      E neste cenário a escola continua desenvolvendo o seu trabalho, pois como citado na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional:

Art. 2º. A educação, dever da família e do Estado, inspirada nos princípios de liberdade e nos ideais de solidariedade humana, tem por finalidade o pleno desenvolvimento do educando, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho (LDBEN,2000).
 

      Mas os resultados obtidos já são de nosso conhecimento, pois como citado anteriormente, somente uma pequena parcela dos jovens estão interessados em permanecer na escola. Se segundo Durkheim (1975) através da educação, a sociedade molda o seu ideal de homem e tem como objetivo desenvolver certos estados físicos, intelectuais e morais, hoje esta educação nas escolas precisa ser reformulada de modo que esteja contextualizada com a sociedade a qual faz parte.

            É difícil competir com a facilidade e rapidez do luxo obtido com a “vida loka”, já que este mesmo jovem deveria passar 14 anos na educação básica até formar-se e ingressar em uma Universidade, na qual passará em média 5 anos e por fim estará qualificado ao trabalho. E por isso, a formação de professores e o currículo tem um papel fundamental neste processo, pois se já sabemos que há uma necessidade de mudança, então porque não a fazemos? Luckesi (2005) traz três fatores para a perpetuação de um sistema que não atende as demandas sociais, sendo eles: (a) a nossa tradição histórica, ou seja, o modelo pelo qual a educação se constituiu com os jesuítas: (b) o vinculo com a sociedade burguesa, em que o poder é centralizado e reproduz a prática de exclusão escolar: (c) o processo psicológico pessoal, a nossa trajetória escolar, tudo o que passamos enquanto estudante, de algum modo é reproduzido quando atuamos na escola.

            É necessário pensar em uma prática que para ser eficaz tenha como subsídio a criticidade e de acordo com Paulo Freire:

“A prática docente crítica, implicante do pensar certo, envolve o movimento dinâmico, dialético, entre o fazer e o pensar sobre o fazer. O saber que a prática docente espontânea ou quase espontânea, “desarmada”, indiscutivelmente produz é um saber ingênuo, um saber de experiência feito, a que falta a rigorosidade metódica que caracteriza a curiosidade epistemológica do sujeito. (…) Por isso é que, na formação permanente dos professores, o momento fundamental é o da reflexão crítica sobre a prática. É pensando criticamente a prática de hoje ou de ontem que se pode melhorar a próxima prática. O próprio discurso teórico, necessário à reflexão crítica, tem de ser tal modo concreto que quase se confunde com a prática. O seu “distanciamento” epistemológico da prática enquanto objeto de sua análise e maior comunicabilidade exercer em torno da superação da ingenuidade pela rigorosidade”. (FREIRE, 1996, p. 22).
 

      Assim, cabe a cada um assumir a responsabilidade profissional que lhe diz respeito, seja educadores e educandos de um lado e família, Universidade e Estado do outro. Se a ação do professor for seguida de reflexão, cada vez mais ele terá a oportunidade de se aproximar contexto social e econômico do seu educando, não para que a sua prática resuma-se aos conhecimentos prévios deste aluno, mas para que seja aberta uma porta para uma aprendizagem significativa, na qual também serão construídos novos conhecimentos e este educando terá acesso a diversidade que a educação propõe.

 

REFERÊNCIAS:

AUSUBEL, D. P. A aprendizagem significativa: a teoria de David Ausubel. São Paulo: Moraes, 1982.

BORGES, P. Apenas 22% dos jovens mais pobres completaram o ensino médio aos 19 anos. Disponível em: <http:/ /ultimo segundo.ig.com.br/educa cao/2014-06-29/apenas-22-dos-jov ens-mais-pobres-completaram-o-ensino-medio-aos-19-anos.html>. Acesso em: 01  julh 2014.

BRASIL, MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO-MEC. Lei ° 9394, de 20 de dezembro de 1996. Estabelece as diretrizes e bases da educação nacional. Brasília, DF: MEC, 1996.

DURKHEIM, E. Educação e Sociologia. São Paulo: Edições Melhoramentos. 1975.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa, São Paulo, Paz e Terra, 1996.

GURGEL, T. Formação inicial: a origem do sucesso (e do fracasso) escolar. Disponível em: < http://revistaescola.abril.com.br/formacao/origem-sucesso-fracasso-escolar-419845.shtml>. Acesso em: 01 julh 2014.

LUCKESI, C. Avaliação da aprendizagem na escola: reelaborando conceitos e recriando a prática. Salvador-Bahia. Ed. Malabares Comunicação e eventos. 2005.

TORRES, A. Funk ostentação é a isca para menores ingressarem no tráfico de drogas em Florianópolis. Disponível em: <http://ndonline.com.br/ Florianópolis/noticias/115 638-funk-ostentacao-e-a-isca-para-menores-ingressarem-no-trafico-de-drogas-em-florianopolis.html>. Acesso em: 01  julh 2014.

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