Tradição Oral

Textos de tradição oral: Da leitura do alfabeto para a leitura do mundo

  Quando criança, era difícil não passar um dia sem ouvir histórias, canções, contos… Lembro-me sentada ao lado das minhas primas maiores tentando cantar a antiga marchinha de carnaval “Mamãe eu quero”. Quando não tentava a todo custo me fazer entender que a música não se resumia somente ao trecho “mamãe eu quero”, minha avó ria sem parar. Esta alegria aparecia também quando nos contava histórias “do seu tempo” e quando nos ensinava as orações de forma única e divertida. As canções sempre fizeram parte da minha vida, algumas mais, outras menos, algumas brincando, outras dormindo, mas sempre esteve lá.

Ferreiro e Teberosky (1999) afirmam que aprender a escrever não é apenas um processo cognitivo, mas também uma atividade social e cultural, essencial para a criação de vínculos entre cultura e conhecimento. Sendo assim, considerando os textos orais e escritos, entende-se que o processo de letramento de um indivíduo começa muito antes do domínio do sistema alfabético de escrita.

            Os textos de tradição oral são provenientes de práticas sociais e, portanto, circulam socialmente, de geração em geração. Como são textos de vivências próprias, carregam um valor afetivo e de acordo com ARAÚJO (2011) “também se apresentam como material privilegiado pra a reflexão sobre o sistema de escrita alfabética, devido a inúmeras características, dentre as quais o fato de serem curtos, memorizáveis, e em vários casos trazerem aspectos sonoros interessantes.”

Textos como este, auxiliam no processo de reflexão da língua e assim, auxiliam no desenvolvimento da reflexão fonológica, que por sua vez ajuda a compreender o funcionamento do sistema alfabético.

A percepção e produção de rimas, a “observação” da emissão sonora de certas sílabas em algumas parlendas e formulas de escolha em que as palavras são naturalmente escandidas, ou a ênfase nos poemas nos trava-línguas, são situações em que está em jogo a consciência metalinguística, metafonológica, relacionada à alfabetização, que pode ser também epilinguística, intuitiva, parte do próprio uso da língua, do jogo oral, sem ainda completa consciência de sua estruturação. (ARAÚJO, 2011, p.20)

As crianças, assim como o adulto não alfabetizado, têm, a partir destes textos de memória, a compreensão de que tudo que se fala, se escreve. Neste processo evolutivo, mesmo sem a aprendizagem da leitura, considera-se que é a partir destas contribuições que se estabelecerá a relação entre a escrita e a pauta sonora. E é neste momento que nasce a construção de hipóteses de escrita relacionadas ao repertório de informações vivenciadas pelo indivíduo. Por isso, é importante que sejam trabalhados nas escolas os textos que fazem parte do seu próprio repertório.

Atividade de leitura com esses textos ajudam a confrontar hipóteses das crianças com informações que o texto traz sobre a escrita. A criança, numa verdadeira situação problema, de pesquisa, tem oportunidade, se bem conduzida as atividades de reconhecer certas palavras, perceber certas relações som/grafia, usando todo o conhecimento que tem dos valores sonoros das letras, sílabas ou de partes das palavras para tentar reconhecer palavras, versos, estrofes, e usando estratégias de leitura (seleção, antecipação, inferência, verificação, decodificação) para ler sem ainda saber, ajustando o oral (que sabe de cor) ao escrito diante de si. (ARAÚJO, 2011, p.23)

Por sua natureza lúdica, os textos de tradição oral apresentam um vínculo prazeroso com a leitura e com a escrita. Sendo assim, reforço a importância dos textos orais no contexto escolar como elemento integrador e motivador no processo de alfabetização, contribuindo assim para um processo de aprendizagem estimulante e prazeroso. Não esquecendo que, a percepção visual contínua e processual é fundamental para o desenvolvimento da habilidade de escrita do sujeito.

Parlenda “Feijão com arroz”. FONTE: Google Imagens.

Enfim, através desta construção, este momento possibilitou uma tomada de consciência mais ampla e detalhada do meu processo de alfabetização. Levando-se em consideração o contexto em que ocorreu este processo (anos 90) e entendendo a alfabetização como um processo que se constrói através das práticas sociais e não como um processo mecânico, sem sentido, acredito que o meu olhar crítico se constrói agora a partir de uma análise pedagógica, na qual diante da minha formação como professora alfabetizadora, poderei contribuir, com o apoio da minha tradição de textos orais, para a alfabetização das crianças que fazem parte desta geração.

 

 

REFERÊNCIAS:

ADAMS, Marilyn Jager “et al.”. Consciência fonológica em crianças pequenas. Tradução de Roberto Cataldo Costa. Porto Alegre: Artmed, 2006.

ARAÚJO, Liane. … Quem os desmafagafizar primeiro, bom desmafagafizador será: textos da tradição oral na alfabetização. Salvador: EDUFBA, 2011.

FERREIRO Emilia; TEBEROSKY, Ana. Psicogênese da Língua Escrita. Edição comemorativa dos 20 anos. Porto Alegre: Artmed Editora, 1999.

FREIRE, Paulo. A importância do ato de ler: em três artigos que se completam. 20ª ed., São Paulo: Cortez, 1987.

LEMLE, Miriam. Guia teórico do alfabetizador. São Paulo: Ática, 1991.

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