Língua Escrita

PSICOGÊNESE DA LÍNGUA ESCRITA

O presente texto é resultado de um trabalho de pesquisa realizado em cooperação com uma colega como atividade do componente curricular Alfabetização e Letramento. Buscou investigar as hipóteses que crianças do Grupo 5 de uma escola municipal da cidade de Salvador se encontravam em relação ao sistema de escrita. As nossas análises foram baseadas nas hipóteses de aquisição da língua escrita propostas por Emília Ferreiro e Ana Teberosky (1999).

A professora regente do componente curricular citado nos orientou de maneira clara no como proceder com o diagnóstico, dando-nos uma sequência de procedimentos a serem seguidos.

Seguindo esses procedimentos, iniciamos as atividades da pesquisa lendo para as crianças a história que escolhemos para o trabalho que foi “João e o pé de feijão”. Em seguida, distribuímos uma atividade onde elas deveriam numerar as cenas da história na seqüência em que ocorreram. Tínhamos como objetivo criar situações para que eles pudessem trabalhar com o texto.

Terminado esse momento, solicitamos que um aluno por vez, em um espaço reservado, escrevesse da maneira que sabia as palavras que íamos ditando. As palavras foram todas retiradas da história que acabávamos de trabalhar com eles. Foram elas: vaca, menino, pé, feijão, castelo, galinha, ovo, João.

Finalizado o recolhimento desses dados, o próximo passo seria analisá-los. Por isso, apresentarei agora três diagnósticos em que as crianças serão identificadas por A, B e C a fim de preservar seus nomes. Nossos sujeitos da pesquisa se encontravam nos níveis: Silábico-qualitativo, Silábico-alfabético e Pré-silábico.

Criança A (Hipótese Silábico-qualitativo): 

A hipótese silábica, segundo Ferreiro & Teberosky (1999), se caracteriza pela tentativa de sonorizar cada letra que compõe a escrita. Durante esse processo a criança avança de maneira significativa quando faz a correspondência de uma letra para cada sílaba. Dentro dessa hipótese encontram-se dois subgrupos: a hipótese silábico-quantitativo e silábico-qualitativo. De forma simples, podemos considerar que no primeiro subgrupo a criança representa cada sílaba com uma letra, sem correspondência de som. Já no segundo subgrupo, ela representa cada sílaba com letras fazendo correspondência com o som que querem representar.

Considerando todas essas características e a partir do diagnóstico feito, considerei que a criança A encontrava-se na hipótese silábico-qualitativo.

No momento do diagnóstico, a criança A se comunicou bastante comigo. Quando ditei a primeira palavra, VACA, ela refletiu e me disse:

– Deixa eu lembrar como é o Q.

Nesse momento ela fez, claramente, a relação do som da letra Q com o som da silaba CA, de Va – CA. Já na segunda palavra (MENINO), depois que escreveu “MTU” ela observou e disse que faltava um O e o acrescentou formando “MTUO”. Acredito que, novamente, a criança A relacionou o som da última sílaba NO, com o som da letra O.

Na quarta palavra ditada, FEIJÃO, ela encontrou dificuldades. Mas representou cada silaba com uma letra e correspondeu o som final da última silaba com o som da letra U – VEU. Na quinta palavra ditada, CASTELO, depois que tinha escrito CACU, ela olhou novamente e disse:

– Peraê! Eu errei aqui. [e substitui o C de CU pelo L]

A palavra escrita ficou então assim: CALU. Ela percebeu que deveria substituir a letra C pela letra L, mostrando que percebeu de forma consciente o som da sílaba e demonstrou isto na escrita.

Na sexta palavra, GALINHA, a criança A realmente “travou” a ponto de declarar:

– Agora fiquei confuso pró! [escreveu BA]

Na sétima palavra, OVO, ela novamente reafirmou as características da hipótese silábico-qualitativa quando escreveu CO, e leu C(o) – O(vo). Percebi que solicitar a criança que leia o que escreveu logo em seguida é tão importante quanto pedir para que escreva, pois só assim poderemos perceber como as crianças pensam sobre a escrita, a sua escrita.

A última palavra foi o nome de um colega da turma, JOÃO. Na escrita dessa palavra, percebe-se a correspondência de som de algumas letras escritas pela criança A com o som do nome João.

Criança B (Hipótese Silábico-alfabética): 

De acordo com Ferreiro & Teberosky (1999), a hipótese silábico-alfabética se caracteriza como a transição da hipótese silábica para a alfabética. A criança encontra-se diante de alguns conflitos, como exemplo, a quantidade mínima de letras que uma palavra deve ter.

É justamente nessa hipótese que a criança B se encontra. A sua escrita se aproxima, em alguns casos, da escrita alfabética e em outros casos ainda não grafa as unidades menores da sílaba, hipótese silábica. Por exemplo, na primeira palavra ditada, VACA, ela a escreveu da seguinte forma: VAG. Podemos perceber que ela escreve a primeira sílaba com todas as letras, VA (hipótese alfabética). Mas na representação da segunda sílaba ela utiliza a letra G para representar a sílaba CA, estabelecendo correspondência com o som da letra (hipótese silábico-qualitativo).

Na segunda palavra, de forma semelhante, ela escreve MNUO para representar MENINO. Podemos, com clareza, perceber a relação das letras que ela elege para a representação da palavra com o som das sílabas. Na quarta palavra, CASTELO, a criança B utilizou representações que se assemelham a letras, mas não de forma nítida. Por isso, senti dificuldades em analisar o que ela queria representar, pois no momento em que escreveu, eu não percebi essas representações diferentes e só pedi para que ela lesse o que tinha acabado de escrever.

Na quinta palavra, de forma semelhante à justificativa da primeira, percebemos de maneira forte a característica que marca a hipótese silábico-alfabético, ou seja, a transição da hipótese silábica para a hipótese alfabética. Isto por reconhecer na representação que a criança B fez da palavra CASTELO, que foi: CTDELU, essas características de transição.

A sexta palavra é nitidamente uma representação silábico-qualitativo, pois para representar GALINHA, escreveu GLA, representando cada sílaba com uma letra e se preocupando em relacionar o som. Em contrapartida na sétima palavra, OVO, ela grafou como na hipótese alfabética: OVU.

Criança C (Hipótese Pré-silábica): 

A hipótese pré-silábica é definida por Ferreiro & Teberosky (1999) como um nível onde para a criança escrever é reproduzir traços comuns que ela identifica como a forma básica da escrita.

Dito isso, considero que a criança C esteja no nível pré-silábico, pois ela não faz nenhuma correspondência de quantidade de sílabas, quantidade de letras e letra-som, além de representar as letras de acordo com a forma básica em que está acostumado, a letra de imprensa.

O que mais me chamou atenção é que ela, de inicio, não buscou nem tentar escrever. Nas primeiras duas palavras que pedi para escrever, VACA e MENINO, ela copiou dois nomes de colegas que estavam no quadro. Na terceira palavra, sabendo que não podia repetir o que já tinha copiado, pois as palavras eram diferentes, ela buscou na sala outras palavras para copiar.

Para Ferreiro & Teberosky (1999) a aquisição de formas fixas de escrita tem a possibilidade de levar a duas reações opostas: bloqueio e utilização dos modelos adquiridos para novas escritas. No caso da criança C, o bloqueio, que pode ser profundo ou momentâneo, levou-a a pensar que se aprende a escrever copiando e que não é possível escrever de outra forma.

É perceptível ainda que a criança C utilize um padrão semelhante de letras para escrever as demais palavras, contudo em ordem diferente – característica dessa hipótese de aquisição da língua escrita.

Considero que a oportunidade de analisar a escrita dessas crianças foi importante para minha formação. Digo isso pelo fato de considerar necessário que o professor seja responsável pelo desenvolvimento dos seus estudantes. Conhecer as hipóteses analisadas no presente trabalho, entre tantos outros temas, torna-se necessário para o embasamento de uma atuação docente responsável e comprometida.

REFERÊNCIA

FERREIRO, Emilia; TEBEROSKY, Ana. Psicogênese da Língua Escrita. Porto Alegre: Artes Médicas, 1999. 304 p.
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