Alfabetizar letrando – O uso de textos na alfabetização

Alfabetizar letrando – O uso de textos na alfabetização

Por muito tempo a alfabetização foi considerada como um processo mecânico, fundamentado em cartilhas tradicionais que consistiam, basicamente, na decodificação e memorização das letras que compõem o alfabeto. Entretanto, o uso de novas metodologias tem, atualmente, contribuído para uma nova forma de se trabalhar com a prática de ensino da língua escrita.

Segundo Miriam Lemle, “o momento crucial de toda a sequência da vida escolar é o momento da alfabetização” (1991, p.5). É nesta fase, geralmente os primeiros anos do Ensino Fundamental, que devem ser desenvolvidos os conhecimentos necessários para a progressão dos estudantes. A alfabetização será, assim, a base para que eles possam ampliar o que aprenderam, sendo algo indispensável na formação dos alunos.

O uso de textos na alfabetização se configura como um recurso pedagógico significativo, contrapondo-se à ideia limitada de ensinar a ler e escrever através de cartilhas ou palavras descontextualizadas. Liane Araújo afirma que “[…] a escrita é um sistema de notação alfabética, de base fonológica e ortográfica, mas é também uma prática social e discursiva complexa” (2011, p.11), reforçando que esse processo vai além do simples reconhecimento de letras e sons. É neste sentido que os textos exercem valor fundamental na alfabetização, pois agregam a característica dual de favorecer tanto a aprendizagem de aspectos estruturais, quanto de aspectos funcionais da leitura e escrita como práticas sociais. Tudo isso consiste na concepção de “alfabetizar letrando”, um dos grandes desafios contemporâneos a ser enfrentado no âmbito educacional.

Em algumas instituições escolares, é possível perceber que o currículo, principalmente o do 1º ano (Ensino Fundamental), está direcionado a uma intenção predominante: alfabetizar os alunos; fazer com que eles aprendam de qualquer modo o sistema alfabético. Porém, tais instituições esquecem (ou simplesmente deixam de lado) o fato de que o letramento e a alfabetização são processos complementares. Separá-los seria como deixar uma lacuna na formação dos estudantes, sendo necessário o desenvolvimento de atividades pedagógicas que articulem ambos. Segundo Marlene Carvalho, “a escola pode contribuir de muitas maneiras para informar indivíduos não apenas alfabetizados, mas também letrados.” (2005, p. 14).

Por meio de atividades que envolvem textos, as crianças poderão refletir sobre o uso e função dos diferentes gêneros, além de proporcionar, gradativamente, a compreensão acerca do código alfabético. No entanto, para que os textos realmente exerçam essa função, é preciso incentivar e valorizar a leitura, conforme propõe a autora Marlene Carvalho:

Antes mesmo de ensinar a decodificar as letras e sons, é preciso mostrar aos alunos o que se ganha, o que se aprende com a leitura: mas isso só será possível por meio de atividades que façam sentido, que visem à compreensão de leitura desde as etapas iniciais de alfabetização. Caso contrário, muitos continuarão pensando que a leitura é uma tarefa difícil, complicada e inútil. (CARVALHO, 2005, p. 11-12).

Mas afinal, como trabalhar textos na alfabetização? E as palavras difíceis que podem aparecer no texto, será que os alfabetizandos vão compreender?

A forma que os textos vão ser trabalhados na alfabetização irá depender da criatividade e competência por parte do professor. Existem diversos tipos de atividades a serem desenvolvidas a partir do uso de textos, como é apresentado no livro “Guia prático do alfabetizador”, de Marlene Carvalho, onde a autora sugere e dá ideias de atividades a serem realizadas em sala de aula. Outra opção é o blog “Jogos e materiais para a alfabetização” (Em: <http://oficinasdealfabetizacao.blogspot.com.br/>), no qual também são apresentadas algumas sugestões e ideias sobre o tema.

Quanto à presença de palavras difíceis, não se deve subestimar a capacidade dos alunos, mas sim criar formas de utilizar o texto, buscando contribuir para a aprendizagem e ampliação dos conhecimentos, apresentando novas palavras e expressões, mesmo que sejam consideradas difíceis. A dificuldade é um nível que estará presente em outras atividades e situações, o importante é encontrar formas de superá-la. Conforme afirma Marlene Carvalho: “De fato, o mais importante é que o texto tenha sentido e interesse para a turma. Palavras “fáceis” e “difíceis” aparecerão juntas e serão assimiladas pelos alunos”. (2005, p.42).

O que não podemos é deixar de lado a oportunidade de fazer uso dos diferentes tipos de texto ao alfabetizar letrando crianças nos primeiros anos do Ensino Fundamental. É preciso considerar a importância e representatividade da alfabetização e do letramento na formação dos estudantes e contribuir para o desenvolvimento de práticas contrárias à “mesmice”, muito bem sintetizadas na ladainha do ba-be-bi-bo-bu.

REFERÊNCIAS:

ARAÚJO, Liane. …Quem os desmafagafizar, bom desmafagafizador será: textos da tradição oral na alfabetização. Salvador: EDUFBA, 2011.

CARVALHO, Marlene. Guia prático do alfabetizador. São Paulo: Ática, 2005.

LEMLE, Miriam. Guia teórico do alfabetizador. São Paulo: Ática, 1991.

Anúncios
Esse post foi publicado em Posts 2009 - 2013. Bookmark o link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s