Educação Indígena

Tribo Pataxó! O que você quer saber?

Tema:
Educação Indígena

Título:
Tribo Pataxó! O que você quer saber?

O índio Taquari Pataxó, militante ativo nas questões indígenas, fala sobre a história e luta do seu povo, a importância do fazer coletivo e o que pensa sobre o dia 19 de abril.

Na tarde de quarta-feira do dia 06 de junho, no Instituto de Letras da UFBA, oPET Comunidades Indígenas recebeu o PET Pedagogia para falar sobre a“Educação Indígena”. Com o objetivo esclarecer algumas questões fundamentais sobre o tema, Genilson dos Santos de Jesus, batizado em sua tribo Pataxó como Taquari Pataxó, que está no 7º semestre do curso de Ciências Sociais da UFBA, traz, através desta entrevista, uma abordagem pessoal e crítica das questões que permeiam a educação do povo indígena e a concepção que a sociedade tem deste povo. Às vezes tendemos a equívocos, e como Educadores, nos vemos no dever de trazer reflexões que possam esclarecer certos pontos para a sociedade. Veja abaixo um pequeno trecho da entrevista e para conferir na íntegra, clique aqui.

PETPED: Localize-nos geograficamente e também historicamente quanto à sua nação indígena.

Taquari Pataxó: Bem, começando, o povo indígena Pataxó atualmente vive na região do Extremo Sul da Bahia, nos Municípios de Santa Cruz Cabrália, Porto Seguro, Itamarajú e Prado. […] Historicamente, o povo indígena Pataxó ele sempre viveu na região desde o Rio São Mateus, no Espírito Santo, passando por uma parte de Minas Gerais e Bahia. Então os Pataxós eram um povo Nômade, não tinha morada fixa. Desde os primeiros contatos há relatos históricos de que, por exemplo, hoje uma das cidades Prado e Guaratiba, foram os locais onde se avistou os Pataxós e onde foram feitos os primeiros contatos entre Pataxós e não índios. […] Na data de 1861, os Pataxós foram obrigados a serem aldeiados na aldeia de Barra Velha, […] porque era um período em que os vilarejos estavam ficando maiores e já não aceitava mais que os índios vivessem à solta, que fossem nômades, então o governo resolveu fazer um grande aldeamento envolvendo não somente os Pataxós, mas também outros índios da etnia Tupinambá, Tupiniquim […] Isso significa que hoje os índios Pataxó, eles não são somente Pataxó, mas há também uma mistura com outras etnias.

PETPED: Existe uma escola na aldeia? 

Taquari Pataxó: […] A escola até pouco tempo, na década de 60 para 70 era muito vista como negativa para os indígenas. Os indígenas não gostavam da escola porque entendia que a escola era algo incomodo que vinha colocar as suas aldeias e não considerava as idéias dos mais velhos. E quando a escola chegou logo, era dessa maneira. Então tinha uma rejeição muito grande, aí depois, mais tarde, foi mudando com as novas posturas foi vendo que era necessário integrar a escola com a comunidade. Então hoje tem mudado, hoje as comunidades tem abraçado a escola mais no sentido de que a escola também leva em consideração as características, as peculiaridades daquele povo. Hoje as escolas indígenas, elas tem grande parte, quase que a maioria como toda trabalha com educação diferenciada, ou seja, além de ensinar todas as disciplinas de uma escola comum ela tem um momento, tem uma disciplina exatamente para cuidar da questão tradicional dentro da comunidade Pataxó, a comunidade que a gente vive, chamadas de Patiorã. Patiorã é a nossa língua, mas dentro da sala de aula ela entrou como uma disciplina. […] então é um momento de valorização da cultura indígena. Então as escolas indígenas do Brasil tem adotado esta perspectiva que não era antes apoiado pelo governo, mas depois foi, com o passar do tempo, foram vendo que era uma estratégia boa e que só assim tem tido êxito. Então hoje grande boa parte das comunidades indígenas trabalha com uma educação indígena diferenciada.

PETPED: Como está esta escola nos dias de hoje? O que ela oferta? Os professores são da sua aldeia?

Taquari Pataxó: Bem, hoje a gente vive numa luta constante do protagonismo indígena, do que os índios começa a ocupar as instâncias de decisão, possam assumir por completo a coordenação das escolas, que o índio possa ser professor, que o índio possa ser diretor. Então tem muitas escolas ainda que continuam com os professores não índios e isso as vezes acaba sendo um empecilho no sentido que eles vem com toda uma ideologia da cidade, com toda uma forma que eles aprendem na cidade onde ensinam e muitas vezes querem colocar goela abaixo dentro das aldeias. E não há possibilidade nenhuma disso e aí tem os que não estão a fim, mas têm aqueles outros também que são mais flexíveis, que estão dispostos a construir junto com os índios e é nesse sentido que a gente pensa que deve ser os professores não índios que foram para as aldeias […]. E assim tratando das escolas, hoje a escola, lógico que não vamos dizer que as escolas são totalmente precárias, todos na Bahia. Tem suas exceções também. […] Tem comunidades, algumas poucas que tem uma escola modelo […] como se fosse o desejável de uma escola […], mas tem outras comunidades que os índios não conseguiram ainda se apossar dessas burocracias, não conseguiram ainda entender o funcionamento do estado, e aí tem dificuldade de pauta as suas demandas, e aí que as escolas continuam ainda precárias como eu havia dito, mas tem suas exceções sim.

PETPED: Como se deu o acesso a Universidade?

Taquari Pataxó: […] Eu passei uma boa parte da minha vida, cerca de seis anos da minha vida, indo para outras capitais […] e isso fez com que me desse uma experiência muito grande, a partir daí que eu compreendi, eu tive um entendimento melhor de como é que os não índios vê nós indígenas, A partir disso que foi, acho que foi isso que mais me estimulou a vir para Universidade, porque as pessoas viam o índio de forma, como se o índio fosse algo, um mendigo, necessitando sempre de alguém ta dando alguma coisa e não é nessa imagem que nós enquanto índios gostaríamos de ser vistos. E aí quando eu retornei para minha comunidade, eu retornei com algo diferente, eu falei: – Eu vou mudar minha vida. E assim, para minha surpresa já tinha algumas parentes aqui […] E assim tanto elas duas quanto meus colegas, passaram por dificuldades. E aí assim, eu sempre me coloquei na disposição de tentar mudar essa situação. Aqui na Universidade nós vivemos muitos preconceitos, solos discriminados muito embora isso tenha diminuído, mas ainda é vivido. E o que a gente fica mais triste, é aquele internalizado, que já tão enraizado que a pessoa age com preconceito contigo e às vezes nem percebe.
Só fazendo esse recorte sobre a educação e a Universidade, eu já fui interrogado por inúmeras vezes perguntando “porque que não tem muito índio dentro da Universidade?”, e aí eu apenas faço um pequeno relato falando assim no sentido de ”vamos pensar a educação indígena”, no sentido de que os índios têm a educação completamente precária, muitas das vezes vive lá no interiorzão, porque o governo colocaram os índios todos nos aldeiamentos tudo afastado da cidade, para isolar os índios. Então os acessos hoje das comunidades indígenas são totalmente precários, estrada de barro, estrada sem nenhuma condição de acesso […] Então tem inúmeras e inúmeras dificuldades e quando dá o final do ano os índios estão com as notas baixas e aqueles poucos que conseguem chegar ao ensino médio conseguem vencer, […] e ai ainda tem a isenção. A isenção é outro processo de exclusão. […]

PETPED: Concluiremos sobre sua percepção em relação ao dia 19 de abril. Como índio, como você interpreta esta data no calendário nacional? 

Taquari Pataxó: Bem, eu acredito que o dia do índio é totalmente mal interpretado. No meu ponto de vista o que deveria advogar o que muitos outros parentes deveriam fazer era a consciência indígena. Ao passo que quando fala Dia do Índio está muito ligado a algo restrito ao índio, se o dia é do índio, qualquer outro cidadão pode ir à praia, a outros espaços e não estar estimulado porque o dia é do índio. E quando se fala em consciência indígena você […] para refletir sobre as questões indígenas. […]
Na verdade nós enquanto indígenas achamos isso totalmente ridículo, ridículo porque você apenas chama atenção naquele momento e chama atenção na forma mais medíocre possível, uma vez que você apenas reforça o estereótipo, uma vez que você acaba introjetando na mente daquelas crianças umas idéias totalmente equivocadas: quando você bate na boca, “ououou”, você nunca parou pra pensar o que é que é isso, está passando algo que você não sabe. E assim, uma prática dos índios americanos que pra incitar o outro grupo que estava guerreando, que estava lutando a vir para a guerra, ou seja é algo totalmente agressivo, é chamar o outro pra brigar, “venha, to indo” e assim sem ter uma noção, sem saber e assim essa papagaiada de vestir as crianças não tem nenhum tipo de antemão, questionar pra pensar um modelo de forma muito mais racional, no sentido de trazer informação consistente dos índios, “quem são esses índios?”, “como é que era o índio no passado e como é o índio hoje?”, “quais foram as mudanças?”, “por que?”, “por que que hoje agente tem um índio que tem a aparência de negro?”, e também tem outros deles que continua com as mesma postura de 1500, no sentido do fenótipo, “como que se dá isso?”, “como é que os índios vê a nossa sociedade de branco”, porque só quer ver o índio mas “como é que o índio vê essa sociedade de cá?” Então tem várias formas da gente abordar a questão do dia do índio sem agente fortalecer o estereótipo, sem manter esse preconceito contra o índio. […] Essas reflexões é muito pouco feita pela tanto pela da Universidade, tanto pela sociedade, tanto pelo governo, e assim acaba-se priorizando esse imaginário falso de índio, porque esse imaginário falso de índio tem como você controlar, tem como você não deixar que o índio fale de si mesmo porque se a verdade vier à tona muitas mudanças certamente virão.

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