A ESCOLA NÃO É DIFERENTE DO MUNDO

A ESCOLA NÃO É DIFERENTE DO MUNDO

A escola não é diferente do mundo: um desabafo de um dos inúmeros protagonistas desta história. A professora que busca explicação para as mazelas da Educação no Brasil, tenta justificar – e justificar-se – afirmando-se também como espelho de uma situação social adversa e complexa, de um sistema educacional mais do que hostil, opressor.

A pressa de saber o que você é. Eles têm medos – Eu tenho medo de coisas, assim, totalmente complexas e grandiosas, como o medo da morte, o que acontece depois da vida, quem sou eu, o que vai acontecer comigo – eles têm sonhos… eles são imprevisíveis. Deixam-se revelar e revelam suas escolas e seus mundos neste tocante filme de João Jardim.

Um “facebook social” com traçado etnográfico em um ambiente pouco visitado pelo documentário, que recentemente vem sendo redescoberto. A exemplo do elogiado Entre les murs, de Laurent Cantet (baseado em livro homônimo do escritor e professor François Bégaudeau) que em 2008 transformou ficção em realismo documental, ligando salas de aula do mundo inteiro ao transpor os problemas macrocósmicos da Educação para dentro dos muros de uma escola.

Como um diário de observação entre abril de 2004 e outubro de 2005, em seis escolas dos Estados de Pernambuco, Rio de Janeiro e São Paulo, Pro dia nascer feliz segue ao fluxo de uma viagem na estrada seca e desolada ou em meio à chuva e céu cinzento. Flagrando momentos inenarráveis, adentrando subjetividades e compartilhando da intimidade, é um “portfólio coletivo”, um memorial, um inventário sobre o cotidiano do adolescente brasileiro na escola pública e privada, espaços do inexorável, conflitante e desencontrado mundo. Como bem disse uma estudante: Na essência, somos iguais, mas estamos submetidos a dois mundos diferentes. E ao que a colega completou: Na verdade, é o mesmo mundo, esse é o problema.

O jornalista e publicitário que iniciou sua carreira no cinema de ficção ao lado de Paul Mazursky, Murillo Salles e Cacá Diegues e no documentário, com Walter Salles e Eduardo Escorel, alcança notoriedade através de Janela da Alma, lançado em 2002 e em parceria com Walter Carvalho. Filme que revela sensibilidade para olhar o cotidiano e o extraordinário, alcança público recorde de documentário, sendo premiado e distribuído em diferentes países. Com depoimentos de José Saramago, Hermeto Pascoal, Wim Wenders, entre outros, famosos e desconhecidos, João Jardim provocou com sua lente apurada neste filme os “sentidos da visão”, assim como também aqui, propondo um debate mais abstrato e poético, sem perder o fascínio pela realidade.

Da mesma forma premiado, Pro dia nascer feliz tem não só sua direção, como edição, roteiro e produção e torna-se referência para o documentário nacional. A trilha musical, concebida e gravada por Dado Villa-Lobos, dá o tom da linguagem jovial, ao mesmo tempo densa e esperançosa que embala as inúmeras reflexões sobre oportunidades e contradições do escolar. O título que confere leveza e naturalidade ao filme não poderia ser mais emblemático. Na canção de Frejat e do saudoso Cazuza, inteligentemente recorda-nos através do olhar de uma geração, que nesse universo, ainda estamos meu bem por um triz, pro dia nascer feliz.

Numa viagem no tempo, o documentário é aberto com imagens de noticiários da década de 1960 apresentando estatísticas que, na passagem dos anos, mudam apenas de roupagem. A real informação pretendida foi a cristalização da situação emblemática de descaso com a Educação. A ironia mordaz apresentada ora pelos dados estatísticos, ora pelas falas, não separa vítimas de algozes, já que todos, inseridos no mesmo contexto, formam e conformam suas experiências. A sequência dos fatos narrados parece gritar o quanto nossa escola reflete nossa sociedade. Destarte, seu pano de fundo sutil, sustentado nas entrelinhas, traduz uma esperança na valorização da educação formal e no aprendizado adquirido nas mais diversas e adversas formas, no cotidiano da vida fatídica, no extraordinário do sonho e da poesia.

Em Manari, PE, uma das cidades mais pobres do Brasil, Valéria resiste, subvertendo a ordem, rebelando-se, tecendo a poesia do dia-a-dia para dar sentido à própria existência: Eu deveria ter uma péssima impressão da vida se não fosse a paixão que tenho pela arte de viver. Assim como Keila, em São Paulo que, num de seus poemas revela: O mundo não é o bastante pra mim.

Mesmo em meio aos ditames das determinações e indeterminações sociais, é preciso que o dia nasça feliz – este é o maior motivo para assistir ao documentário, pois num despontar de um novo dia/terei novas esperanças/e no palco da vida/terei uma platéia exclusiva para me aplaudir/em meio às contradições impostas pelo destino.

Link para assistir Pro Dia Nascer Feliz online.

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