O QUE NOS TORNA HUMANOS?

O QUE NOS TORNA HUMANOS?

Intrigante e corajosamente descompromissado, Não me abandone jamais (2011) pode ser visto como drama, romance, ficção científica ou suspense. Dirigido por Mark Romanek, foi baseado no best seller homônimo de Kazuo Ishiguro, aclamado a grande novela da década pela Revista Time. Conta com delicadas e primorosas atuações de crianças e dos jovens Andrew Garfield (A Rede Social), Carey Mulligan (Educação) e Keira Knightley (Orgulho e Preconceito), ambas já indicadas ao Oscar. Pertencentes a uma nova safra de atores, mais intuitivos e autorais, suas interpretações comedidas, sem grandes saltos dramáticos, dão o tom intimista da narrativa, fiel à obra literária, contando com o próprio Ishiguro como um dos roteiristas. Nos efeitos sutis e minimalistas, na fotografia plácida, harmonia das cores e tons quase “pastéis”, vislumbramos a metáfora da contenção dos sentimentos. Tudo parece calculado, medido, transplantado, transmitindo-nos a mesma ideia que se esconde atrás das regras muito rígidas, da perda progressiva de liberdade e das verdades encobertas. Por outro lado, o limiar: tudo parece estar por um fio, como se por trás de toda essa harmonia, houvesse um movimento caótico a ser liberto – ou rompido – a qualquer momento. Um paradoxo da existência humana.

Apesar dos devotados elogios, o filme causou reações adversas da crítica e do público. A opção por uma realidade alternativa no lugar de clichês futuristas torna-o ainda mais provocador. Acusado de delirante, o filme é quase um “retrato” que acaba convencendo por suas imposições factíveis.

Enxergar através de lentes cinematográficas nem sempre é tarefa fácil. Contemplar a obra sob a ótica do seu criador, transpor o olhar e transformar-se em co-autor, ainda menos. É preciso algum esforço – ou muito – para sair do conforto das poltronas das salas de cinema e abdicar das próprias crenças nem que seja por um momento que pode ter a duração do filme. Aconteceu comigo na sala de cinema: será o pensar sinônimo de relativizar?

A primeira cena é retomada ao final do filme, o que por si só é revelador. O olhar que confronta o futuro é remetido ao passado. Há muitas histórias neste filme e nem todas são verdadeiras, assim como também são histórias que nos foram contadas e que contamos a nós mesmos. A primeira “fala”/texto é parte de uma história de quem não se vê como vítima, mas ao contrário, se orgulha do que faz:

Eu não pretendo me vangloriar, mas me sinto muito orgulhosa do que fazemos. Já fomos tão longe… Isso mostra que não somos máquinas. No final é exaustivo. Acho que é por isso que agora passo a maior parte do meu tempo sem olhar para o futuro e sim para o passado.

Além da questão implícita na cena em torno do tempo e da reverência ao passado, também está presente o problema da identificação inexorável do ser com o fazer, assim como a necessidade de respaldo e aprovação da sociedade para o trabalho. A evolução das personagens através da passagem de “Muitos disseram que eu seria boa nisso” para “Sou boa em meu trabalho” pode ser interpretada como apenas, resignação. Destarte, outra opção poderia ser pensar no que diferencia o trabalho do fardo ou da obrigação.

Semelhanças à parte com A Vila e A Ilha e os clássicos 1984 e Admirável Mundo Novo, só para citar alguns, nos mostram o quanto previsões para um futuro que já vivemos (estranho, não é?) estão mergulhados em temas como a liberdade (e não nos esqueçamos da igualdade e da fraternidade); a educação como prática social; ética x ciência. Os temas da clonagem humana são recorrentes, mas antes deste, o tema da humanidade salta da tela; afinal, o que nos torna humanos? Não me abandone jamais incita esta reflexão e nos aponta pistas: as idiossincrasias entre os três tempos; o temido phatos; a função da arte; a necessidade de aprender.

Uma “escola” futura, presente ou passada? Com certeza um lar, um abrigo, uma proteção. Órfãos, antes mesmo de nascer, estão predestinados por sua missão: os alunos de Hailsham são especiais. Apesar de sua perspectiva sóbria – “eu não deixo que a fantasia vá além disso; não posso deixar” – não é um filme sombrio nem triste como costumam ser representados os internatos. Suas nuances e sutilezas nos levam a um otimismo quase ingênuo, afinal, também “Hailsham foi o último lugar a levar a ética em consideração”. O abreviamento da vida tem a chance de ser questionado quando a nova tutora destas crianças, num lampejo de rebeldia tenta deliberadamente apontar-lhes um caminho. Mas é o discurso acalorado, o qual “sabemos que a massa não aceita o pensamento progressivo” e “tem a mente estreita, com valores que nunca são discutidos” que prevalece. A ordem é então, de um modo diverso do que estamos habituados, subvertida, e uma nova tensão instala-se.

Num triângulo amoroso, o arrependimento diante da morte iminente é revelado no comportamento das personagens: “foi a pior coisa que já fiz. E agora quero corrigir (…) Não foi fácil, mas tive tempo para pensar no que fiz e anos para pensar como poderia corrigir”.

O que é um amor verdadeiro? O que diferencia a pena da compaixão? Qual a função da arte? Sua poética também se traduz no aprendizado do cotidiano; também na esperança de salvação através da arte até descobrirem que, ao invés da arte ser usada para mostrar suas almas, era usada para saber se tinham mesmo alma.

Examinar a condição humana consiste em acompanhar suas transformações e embora não se confunda com a imagem que fazemos de nós mesmos, esta é intrinsecamente histórica. Assim procurou Auerbach em Mimesis, configurar a realidade exposta para compreender o que é esta condição através da historicidade das formas de consciência. O cinema, por sua vez, neste comovente convite ao abandono, além de buscar, não responder, mas perguntar “o que nos torna humanos?” nos impõe outra celeuma. E talvez, mais difícil ainda, seja questionar o sentido de nossa existência quando todos os esforços da narrativa encerram-se no absurdo da vida que é morrer: “Todos nós concluímos. Talvez nenhum de nós entenda realmente o que viveu ou ache que teve tempo o bastante”.

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