Quem conta um conto aumenta um ponto: contação de história como prática educativa

Quem conta um conto aumenta um ponto: contação de história como prática educativa

Certa vez, uma bolsista do Programa de Educação Tutorial do curso de Pedagogia (PETPED) estava em uma turma do 2º ano, desenvolvendo o Practicum II, grupo ao qual ela pertencia, quando se viu só em uma sala que encontrava-se totalmente inquieta. A professora da sala vizinha, já não suportando o incomodo, veio até a sala em que ela estava, e começou a falar duramente com os alunos, que pouca importância deram.
Daí, a petiana*, lembrou-se de uma “carta que tinha na manga”, uma história contada que aprendera em uma oficina de contação de histórias ofertada pela disciplina do curso de Pedagogia, Alfabetização e Letramento. A sala silenciou para ouvir a história contada. A petiana se encantou com os olhos atenciosos ao conto, que deleitavam-se a novidade. Assim me contaram, assim eu conto para vocês…

A narração é uma necessidade inerente ao homem, exercida há milênios para anunciar as descobertas, conquistas, dúvidas, conhecimentos, valores etc. Ela antecede a linguagem escrita, onde os acontecimentos de um povo ou tribo eram transmitidos pela tradição oral. Nos tempos remotos, existia a figura do contador, aquele que trazia informações de um mundo antecedido pela era midiática. Além dos acontecimentos reais contados com um toque “mágico”, ele criava histórias para explicar os fenômenos inexplicáveis da época. O contador também era uma pessoa mais velha, sábia, que entretinha a todos com o instrumento da palavra.

Segundo Fleck (2007, p.216) “a figura do contador de história reapareceu com grande vigor nas últimas décadas do século XX”. Chegando com força ao Brasil na década de 1990. A partir daí, houve uma procura crescente de especializações, oficinas, cursos que formassem profissionais para esse campo.

Por muito tempo, a contação nos ambientes escolares ocorria para ocupar os tempos vagos da aula. Infelizmente, ainda hoje, muitas dessas instituições utilizam com essa mesma função. De acordo com Barcellos e Neves (1995 apud Fleck, 2007, p. 216) “a criança que ouve histórias com frequência educa sua atenção, desenvolve a linguagem oral e escrita, amplia seu vocabulário e principalmente, aprende a procurar, nos livros, novas histórias para o seu entretenimento”. O que evidencia a importância da contação como prática educativa, que perpassa um simples passatempo.

Há instituições, que reservam o tempo da contação de história, como se fosse algo extracurricular. Até contratam profissionais que o faça. Não estou aqui para condenar as instituições escolares, mas entendo que essa prática deve estar inserida no contexto escolar com um segmento, com uma intenção. Não simplesmente como um “tapa buracos” ou como uma atividade a parte. Uma boa narração permite que o educando desenvolva senso crítico a interpretação e a oralidade.

“Habitualmente, nosso sistema educacional, ao considerar o aluno alfabetizado, promove a leitura de livros extra-classes, que são de grande valor e de extrema importância para a formação do hábito de leitura, mas que não substituem uma boa história contada, cantada, contada e cantada, gesticulada, ilustrada, dobrada em uma folha de papel… Contar histórias é também trocar idéias.” (Barreto, 2003, p. 5).

Para ser um bom contador de histórias, é preciso conhecer a história que irá contar. Escolher uma linguagem acessível e a duração do conto para atender a faixa etária que ouvirá. Envolver os espectadores, permitindo-lhes a identificação com os personagens. Para auxiliar na contação o narrador pode fazer uso de dobraduras, livros, bonecos, músicas, fantoches, tecidos etc. Tudo que a imaginação permitir.

Contar história é provocar o imaginário de quem ouve, pois quem ouve dá sentido ao que esta sendo contado. É recontar causos da própria vida, da cultura na qual estamos inseridos e de outras culturas. É a reflexão de nós mesmos, do mundo ao qual pertencemos. É uma ação que possibilita que a criança pense, tornando-o um sujeito crítico e criativo. Cabe a cada professor permitir que o gosto pela leitura seja de fato prazeroso, inserindo-o em seu planejamento pedagógico de forma contextualizada.

Referências:

BARRETO, Cintia Costa. A arte de contar historias: uma reflexão com crianças na faixa etária de 4 a 5 anos. Disponível em: << http://www.educacao.uerj.br/Monografias/2003/A_ARTE_DE_CONTAR_HISTORIAS.pdf>>. Acesso em 17 mar. 2012.

FLECK, Felícia de Oliveira. O contador de histórias: uma nova profissão?  Disponível em: <<http://www.periodicos.ufsc.br/index.php/eb/article/view/1518-2924.2007v12n23p216/404>>. Acesso em 15 mar. 2012.

REGATIERI, Lazara da Piedade Rodrigues. Didatismo na contação de histórias. Revista em extensão. V. 7, n. 2. Disponível  em:<<http://www.sumarios.org/sites/default/files/pdfs/28771_3811.PDF >>. Acesso em 15 mar. 2012.

SISTO, Celso. Contar histórias, uma arte maior. Disponível em: <<http://www.celsosisto.com/ensaios/ContarHistorias.pdf>>. Acesso em 20 mar. 2012.

Fonte da imagem: http://pedagogiareinventada.blogspot.com.br/2011/01/arte-de-contar-historias-o-ludico-que.html

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