A língua de Eulália: as muitas línguas brasileiras

A língua de Eulália: as muitas línguas brasileiras

Atualmente a discussão acerca da língua portuguesa, e especificamente do preconceito linguístico contra algumas de suas variantes dialetais, tem crescido consideravelmente. Apesar do acesso mais facilitado a acervos sobre o assunto, a debates, esta forma de preconceito não aparenta ter diminuído, assim me parece.

Recusar o que é diferente ainda é um costume, uma rotina no cotidiano de muitas pessoas. Não só a diferença em relação ao modo de falar, diversos outros aspectos figuram na lista do que pode acabar não sendo bem aceito: gostos diferentes, crenças, cor da pele e a opção sexual, para citar os mais aparentes e corriqueiros.

Tive um significativo contato com a temática desde o segundo semestre do curso de Pedagogia. Cursei disciplinas em que pude aprender um repertório de conceitos linguísticos para falar sobre nossa própria língua, o porquê de falarmos de diferentes formas, como nosso aparelho fonador funciona e quais são os processos fonológicos recorrentes; entre eles: o rotacismo, um dos processos a que mais recebemos de braços fechados, fazendo deboche de quem dele faz uso em sua fala. Define-se rotacismo como fenômeno fonológico implicado na troca da letra “l” pelo “r”, tal como observamos em planta/“pranta”, problema/“pobrema”, Cláudia/“Cráudia”.

A Língua de Eulália, de Marcos Bagno, nos apresenta todos esses processos, de onde eles vieram e seus motivos, de uma forma simples, bastante compreensível, creio, até para quem nunca teve qualquer contato com a Linguística. E é sobre este livro que falarei nas linhas seguintes.

Bagno é um sociolinguista mineiro, oriundo de Cataguases, e que já morou em diversas cidades do Brasil, inclusive aqui em Salvador. Tem graduação em Letras, mestrado em Linguística pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e doutorado em Língua Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP). Hodiernamente é professor da Universidade de Brasília (UnB), pertencente ao departamento de Línguas Estrangeiras e Tradução. É, também, tradutor e escritor premiado e com diversas obras já publicadas.

A Língua de Eulália foi publicada pela primeira vez em 1997. O livro nos apresenta três amigas, todas estudantes universitárias: Vera, Emília e Sílvia. A primeira é estudante de Letras, a segunda de Pedagogia e a última de Psicologia. Elas viajam até a casa de Irene, a tia de Vera, em Atibaia, interior de São Paulo, e lá conhecem Eulália, empregada doméstica, alfabetizada já adulta: uma senhora que tem uma forma “diferente” falar.

Para elas, a forma como Eulália fala está errada, e, ao passo que tem conversas, quase como aulas, com Irene, professora de Língua Portuguesa que está em fase de conclusão de seu livro acerca das variações linguísticas, vão percebendo que, na verdade, Eulália tem uma forma própria de falar, reflexo do meio social em que vive, da classe a qual pertence, do lugar de origem, do nível de escolaridade. Eulália fala o Português considerado não-padrão, o não-culto, quase como um dialeto próprio.

O dialeto não-padrão não deixa de ser Língua Portuguesa, é apenas caracterizado por diferentes regras, regras que simplificam o falar, que seguem a sua própria lógica de existência e fluidez, sendo aprendido, e não apreendido como acontece com a norma padrão tida como a “correta”.

O mais interessante no decurso da leitura do livro é também acabar tendo aulas com a personagem Irene, ir aprendendo o porquê das variações ocorrerem, o contexto histórico e muitas vezes burguês da nossa própria língua.

Em relação ao rotacismo, processo fonológico dos mais discriminados, somos apresentados à explicação do que acontece. Tomo a liberdade de reproduzir o gráfico explicativo presente na pág. 44:


(Bagno, Marcos. A língua de Eulália: a novela sociolinguística. 16 ed – São Paulo: Contexto, 2008. Pag. 44)

É possível ver, na tabela, que o próprio Português tratou de, digamos, “rotacionar” algumas palavras do latim. Bagno ainda traz exemplos do livro Os Lusíadas, de Camões, em que ele próprio tinha rotacismo. Por exemplo: “Doenças, frechas, e trovões ardentes”, trecho presente no supracitado livro (BAGNO apud CAMÕES, 2008).

Outro ponto bastante pertinente é como a norma culta sofre forte influência da língua do cotidiano. O que um dia já foi o “errado”, quando aderido pelas pessoas pertencentes às camadas mais altas da sociedade e levadas à norma culta, invariavelmente se torna norma culta.

Vale ressaltar que o errado só é errado se comparado como alguma outra coisa que é considerada certa, ou seja, é uma noção criada por nós mesmos a partir do que nos foi passado durante o trajeto histórico, a partir das convenções, de opiniões alheias que mesclam-se às nossas próprias.

Em linhas gerais, A Língua de Eulália é um livro que deveria estar na estante de todos os interessados na Língua Portuguesa; acredito que não só para professores, mas também para os próprios alunos, especialmente para aqueles alunos, que como eu, um dia pretendam ensinar aos outros a ler e a escrever.

Marília L.

Referências

“Quem é Marcos Bagno”. Disponível em , acesso em 01 jul. 2011.

Marcos Bagno in: Wikipedia. Disponível em: , acesso em 01 jul. 2011.

BAGNO, Marcos. A língua de Eulália: a novela sociolingüística. 16 ed – São Paulo: Contexto, 2008.

BAGNO, Marcos. Nada na língua é por acaso: por uma Pedagogia da variação linguística. 2 ed – São Paulo: Parábola, 2007.

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