O DESEJO QUE NOS MOVE

O DESEJO QUE NOS MOVE

Movida pelo desejo de tornar-me dele leitora, transportei “O Leitor” para minha sala e assim aconteceu comigo na “sala de cinema”.

O filme provocou em mim o desejo de refletir sobre o holocausto (o que foi de fato a tragédia que aconteceu quando muitos sabiam o que estava acontecendo?); a extrapolação de uma “consciência” – ou falta dela – nas formas de pensar e agir; atributos internos (medo, covardia, orgulho, ressentimento, vergonha) que ultrapassam os limites do pessoal – será que de fato existem? – forjando o social e vice-versa.

Também sobre o fascínio provocado pelas letras, o desejo de saber ler, a vergonha por não saber. Duas realidades se cruzam, se envolvem e são marcadas para sempre; uma paixão alimentada silenciosamente por este fascínio. Ele, o leitor, ela, analfabeta. A questão “não saber ler” dialoga com a exclusão social, com a exploração do outro, com as implicações na auto-estima… para em outro nível, dialetizar com a consciência e o que somos capazes de fazer com ela e sem ela.

Como um trabalho meramente burocrático confere pavorosa distância do trabalho humano, sensível? O exemplo de Adolf Eichmann, Hannah Arendt tentou explicar por meio da “filosofia útil”, indispensável à vida reflexiva, vida esta que vai se tornando cada vez mais consciente. O exemplo de Hanna Schmitz, quem desejará explicar?

Diz o filme que “por trás de um mistério há uma verdade que nos fará questionar tudo em que acreditamos” *. Que verdade é esta? “As sociedades pensam que funcionam através de conceitos morais, mas não. Elas funcionam através de algo que se chama lei.” * Uma personagem questiona a ausência de moralidade na lei e não é capaz de expressar moralidade no que pensa. Tanto a ética, que se pretende universal, quanto o moralismo, que restringe, são movidos pelo combustível chamado desejo. O desejo é capaz de mobilizar recursos inimagináveis. Hanna começa a viver por causa de um desejo. Depois resiste a uma triste realidade por causa de um desejo. Desejo satisfeito, outro desejo emerge, insurge, insubordina-se, mas não sobrevive. Sem desejo Hanna entrega-se e deixa de existir.

Por tudo isso, fui conduzida ao desejo de refletir sobre o lugar do desejo na educação e sobre que educação desejamos. Sobre a dessensibilização do trabalho de educar e de qualquer trabalho quando o reduzimos a uma mera função. “Todos me perguntam o que aprendi nos campos de concentração. Só que os campos de concentração não eram terapia. O que acham que eram? Universidades?” *

O que nossa Universidade deseja que aprendamos? E o que ela mesma deseja aprender? Se sou parte dela reitero em mim o desejo que me move a responder.

Uma bela adaptação para o cinema da obra de Bernhard Schlink, sucesso mundial, O Leitor é mais do que um convite. A mim desafiou a pensar renovando meu desejo de pensar para melhor agir.

*Trechos de diálogos do filme.

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