Alfabetização…

As letras no país dos espelhos

Há divergências sobre os fatores que levam as crianças a inverterem letras em algum momento do processo de aquisição da escrita. É difícil, contudo, encontrar características que identifiquem a idade, nível de escolaridade, tipo de inversão, frequência com que ocorre, período de tempo em que permanecem na escrita das crianças, podendo ultrapassar o período pré- escolar, chegando ao Ensino Fundamental. Tudo é ainda muito nebuloso neste país dos espelhos onde letras são invertidas.

Tive uma experiência com um aluno do 3º ano do Ensino Fundamental que chamarei de Joãozinho, quando nós, integrantes do PETPED, trabalhávamos com Oficinas de Alfabetização em nosso PRATICUM I (Estágio Extra-Curricular) no ano letivo de 2010.

Foi o primeiro contato que tive com uma criança que, no 3º ano do Ensino Fundamental, não sabia ler. Percebi que ele invertia as letras; e naquela época, eu ainda não sabia o que eram letras espelhadas (especulares). Pelo tempo de contato de Joãozinho com o mundo das letras na escola, eu imaginei que ele já deveria ser no mínimo alfabético, partindo da ideia de Emília Ferreiro quanto a Psicogênese da Língua Escrita. Naqueles tempos, eu, em minha inocência pedagógica, imaginava que as etapas do desenvolvimento da língua escrita coincidiam com a progressão dos anos escolares.

Quis acompanhá-lo de perto. Eu queria entender o porquê da inversão das letras e dos números. Comecei a notar que ele trocava o p pelo q, e isso me afligia. Inicialmente, como aspirante a Pedagoga, diagnostiquei-o como disléxico. É muito comum assim sermos tentados como estudantes de Pedagogia e de Psicologia. Por alguma estranha razão, acreditamos que diagnósticos constituem a chave dos problemas de ensino e aprendizagem em escolas. Mas, para decepção momentânea minha e estado de graça posterior, consegui entender o que significava as tais letras no país dos espelhos.

Para uma criança, em processo de aquisição da língua escrita, diferenciar os traços das letras pqb e d é muito complicado, ainda que isto possa soar ao leitor um absurdo. Observe que em todas essas letras há um círculo no meio que é acompanhado de uma reta na lateral; esta reta, por sua vez, se apresenta do lado esquerdo embaixo (p), do lado direito embaixo (q), do lado esquerdo em cima (b) e do lado direito em cima (d). (ZORZI, 2011, p. 7)

Vamos aproximar as letras das mães para entender melhor este babado. Segundo Jean Piaget, a criança entende, por exemplo, que sua mãe não deixa de ser sua mãe só por ter mudado de posição; ou seja, de pé ou sentada suas características não variam. Porém o mesmo não acontece com as letras, pois elas podem perder o valor sonoro dependendo do formato e do posicionamento em relação ao eixo. Mas até que a criança descubra estas diferenças, bem, isto leva tempo, talvez mais tempo do que imagina a nossa ansiedade de alfabetizar.

A autora Arroucha* (2011) destaca que a criança, ao escrever espelhado, ainda não traz consigo o domínio do traçado dos grafemas (letras), por possuir pouca informação, acaba se confundindo no momento da escrita.

[…] a criança faz várias tentativas nas quais cria e recria o sistema de escrita. Nesse processo, podem aparecer números no meio das palavras, ou letras e frases invertidas, pois os aspectos gráficos não são a preocupação maior da criança. O que ela quer é descobrir com quantas e quais letras se escrevem uma palavra. (Bettina Aroucha, 2011)

Para Luchezi** (2011), a relação espacial entre direita/esquerda, baixo/alto, frente/atrás estão relacionadas com o espelhamento, ocasionada pela falta de maturidade neuronal da criança em relação ao seu próprio corpo.

É muito comum que os professores confundam os espelhamentos com distúrbios de aprendizagem ou patologia incorrigíveis, e acabam se equivocando ao lidarem com isso como erros, quando, na verdade, é a forma que a criança mostra sua compreensão da escrita.

*Bettina Aroucha é coordenadora pedagógica da Escola Nova Nossa Infância em Salvador e amiga da REDSOLARE BRASIL
**Valquiria Miguel Luchezi é pedagoga e psicopedagoga.

Referências

BAZ, Maria Clara. Eles confundem ‘P’ com ‘B’. Disponível em: <http://educarparacrescer.abril.com.br/aprendizagem/confundem-p-b-390236.shtml>, acesso em 30 mai. 2011.

FRANCO, Rosemary Carla. Escrita Espelhada. Disponível em: <http://vamos-educar-educando.blogspot.com/2011/05/escrita-espelhada.html>, acesso em 30 mai. 2011.

ZORZI, Jaime Luiz. As inversões de Letras na Escrita: o “fantasma” do Espelhamento. Disponível em: <http://www.filologia.org.br/soletras/15sup/As%20invers%C3%B5es%20de%20letras%20na%20escrita-%20o%20%27fantasma%27%20do%20espelhamento.pdf>, acesso em 30 mai. 2011.

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