Lixo, Luxo!

Do luxo ao lixo e do lixo ao luxo

Aconteceu comigo na sala de cinema. O documentário Lixo Extraordinário (2010), de Lucy Walker, ainda em cartaz, apresenta um brilhante trabalho de Vik Muniz, tido como o artista plástico brasileiro mais aclamado no exterior atualmente. Não à toa, arrematou o prêmio de melhor filme em Berlim (2010) e concorreu ao Oscar de melhor documentário (2011). A simplicidade e a concisão que manifestam-se através da montagem expressiva traduzem a própria trajetória de Vik Muniz. E foi essa trajetória que me fez pensar sobre o luxo e o lixo de nossas vidas.
O artista que sai do luxo ao encontro do lixo para do lixo alcançar o luxo. Para mim foi estimulante pensar a vida como um ciclo dessa natureza. Um ciclo que se abre e se fecha e se abre novamente, sem saltos, como o ciclo lunar, num processo gradativo e ininterrupto.

Alguém que cura um trauma consumindo “parafernálias”, como declara o próprio no documentário, nada melhor do que se aproximar do lixo para vivenciar o luxo de fazer algo por alguém que não ele mesmo. Ou como disse, “apenas retribuir”. Retribuir o quê e a quem? Retribuir o luxo a quem está literalmente no lixo. E foi assim que deu início ao seu trabalho em um dos maiores aterros sanitários do mundo, coincidentemente — será? — instalado no Brasil.

Trabalho criativo, como um trabalho que se dedica a criar o novo para alguém, foi o que ele pretendeu. Pretensioso demais? Talvez, mas, inegavelmente humano, pois, o que é o homem senão um animal que se torna humano porque possui potencial para sê-lo? Como convida Zaratustra: “Torna-te aquilo que és”.

Foi assim que Vik Muniz transformou o lixo “comum”, execrável e quase invisível em lixo extraordinário com pessoas que sobreviviam naquele lixão, em parceria com o desejo de cada um – inclusive o dele mesmo – de vislumbrar outras paisagens. A exemplo de Tião Santos que visita Londres e vê a própria imagem lhe render alguns milhares de dólares e como os outros, experimenta a emoção de se ver como uma obra de arte. Ninguém mais queria continuar no lixo. Cada um buscou sua nova morada… e encontrou, deixando de ser invisível como o lixo para tornar-se visível aos próprios olhos e — por que não? — aos dos outros também.

E o artista, o que encontrou? Penso que o mais extraordinário que o luxo pode fazer é nos remeter ao lixo. Não a qualquer lixo, mas ao nosso lixo interior que do outro nos aproxima para voltarmos ao luxo. Não ao mesmo luxo, mas àquele luxo que evoluiu para nos conceder o luxo de nos darmos ao luxo de fazer algo verdadeiramente significativo. E o que é verdadeiramente significativo não deixa de ser dividido… e multiplicado.

Como disse Tião, na entrevista concedida ao Programa do Jô, arrancando uma salva de palmas da platéia: “A gente não é catador de lixo, é catador de material reciclável. Lixo é aquilo que não tem reaproveitamento, material reciclável, sim”. Afinal, o que conseguiu o artista? Tiremos nossas próprias conclusões. Eu, naquele instante de uma hora e trinta minutos concluí que não posso mais adiar meu trabalho criativo de tornar meu lixo material reciclável. E só pensar isso já é um luxo…

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Esse post foi publicado em Posts 2009 - 2013. Bookmark o link permanente.

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